Câmeras DSLR e Documentários

Câmeras DSLR e Documentários

    O objetivo desse texto é compartilhar algumas experiências pessoais usando câmeras DSRL na produção de documentários. Como exemplo, uso alguns trabalhos gravados entre 2012 e 2014.

    Quando as câmeras fotográficas DSLR (digital single lens reflex) que filmam em full HD chegaram ao mercado – em meados de 2008 – houve uma revolução na produção audiovisual. Rapidamente foi possível dar um salto enorme na qualidade das imagens com uma redução significativa nos custos de produção. Modelos badalados, como a Canon 5D e 7D viraram febre entre as produtoras de cinema e vídeo, afinal era possível filmar em alta qualidade utilizando câmeras fotográficas. Atualmente, modelos mais em conta, como a Canon t5i e t6i, são as câmera mais populares entre os cineastas iniciantes.

   Em situações controladas, por exemplo, em estúdios, essas câmeras tem um ótimo desempenho, porém, em filmagens externas e situações não tão previsíveis o rendimento delas é menor, especialmente em relação ao áudio.

    Como na maioria das vezes gravo sozinho, acabei optando por equipamentos que cabem em uma mochila e são adequados para praticamente qualquer situação.

DSC02452

   Em 2012, comecei a documentação do Labmovel utilizando uma Canon t3i (600D) com uma lente Canon EF-S 18-55mm f/3.5-5.6, um cartão SD de 16GB e duas baterias. Optei pela t3i basicamente por, na época, ela possuir o melhor custo benefício de todas as DSLR da Canon, custando muito menos do que modelos mais badalados como a 7D e 60D e com exatamente o mesmo sensor e processador, ou seja, com a mesma qualidade de imagem. A t3i também é mais leve e mais compacta, além de possuir um visor LCD que flipa, algo essencial para quem trabalha com vídeo.

    Apesar de bom esse kit era bastante limitado, principalmente pela lente 18-55mm. Mesmo tendo uma boa medida, o fato de ser uma lente f/3.5-5.6 compromete demais filmagens com pouca luz. Como o Labmovel realizava muitas atividades ao entardecer e a noite, uma lente mais “clara”  passou a ser minha prioridade.

   Pouco tempo depois adquiri uma Canon EF 50mm f/1.8 II. 50mm é uma medida presente na 18-55mm porém a abertura f/1.8 facilitou muito as filmagens com pouca luz. Depois dela, as outras aquisições foram mais cartões SD e baterias, sempre comprados em sites chineses como o Tinydeal e o DX, economizei uma boa grana comprando nesses sites. Com esse equipamento gravei praticamente todo o documentário do Labmovel 2012.

  No final de 2012, rodei meu quarto curta-metragem, Abrasivo. Antes do início das filmagens, resolvi substituir a 18-55mm. Como já estava bem adaptado com a medida, optei por uma 17-50mm f/2.8 VC da Tamron. Por ser uma lente f/2.8 o desempenho dela com menos luz é muito melhor que a antiga 18-55mm e eu não precisaria me preocupar em reajustar a exposição cada vez que usasse o zoom. Já com o estabilizador de imagem mecânico eu não precisaria mais usar acessórios para transformar a DSRL em uma câmera de ombro, o que faz você parecer o Robocop.

   Abrasivo foi muito importante para aperfeiçoar maneiras de se gravar o áudio com DSLR, vou voltar a esse assunto mais adiante. Muitas cenas do filme foram gravadas em lugares ermos e debaixo de chuva.

  Nessas situações fez diferença poder carregar todo o equipamento em uma mochila, inclusive o tripé: um inseparável Manfrotto 785B. Em alguns momentos utilizei uma lente Tamrom 70-300mm f/4-5.6 VC, emprestada pelo parceiro Lucas Bambozzi.

   Pouco tempo depois realizei as gravações de Abandonamento, um projeto que mistura linguagem  documental com artes visuais. O trabalho foi todo gravado em lugares abandonados na região de Berlim, na Alemanha, em temperaturas que chegavam aos -10ºC.

   Como o acesso a maioria desses locais não era tão simples, optei por levar um equipamento ainda mais leve: a t3i, a Tamron 17-50mm, a Canon 50mm, cartões, baterias e o tripé. Tudo sempre em uma única mochila. Me lembro de duas vezes em que a câmera deu uma mensagem de erro acusando que não havia comunicação entre a câmera e a lente, certamente por causa do frio. Nessas situações parei de gravar, desliguei a câmera, limpei os contatos da lente e esperei alguns minutos até que tudo voltasse ao normal.

Áudio

    O áudio é fundamental em qualquer documentário. Porém com as DSLR a gravação do som direto muitas vezes fica a desejar. Por isso muitos profissionais optam por uma unidade independente de gravação de som. Mas se você está sozinho ou em um ambiente externo isso pode gerar complicações.

   A principal falha do áudio das DSLR é o fato dos pré-amplificadores delas serem fracos, com uma relação sinal/ruído ruim. Para driblar esse problema, a solução que encontrei foi o uso de pré-amplificadores externos, para o sinal já entrar na câmera mais alto. Criei três setups de áudio:

– Ambientes Hostis.

   Quando não tenho o menor controle do som ambiente, por exemplo, ruas, shows e lugares com muitas pessoas falando. Nessas situações uso um microfone Azden SMX-10 plugado direto na câmera. Esse microfone possui um sistema interno de pré amplificação que dá um bom ganho no sinal. Se o pré-amplificador das DSLR é ruim, por outro lado compressor é bom e confiável. Nesse setup deixo o controle  do volume no automático e compressor cuida para que o sinal não fique saturado.

Labmovel 2012

Labmovel 2012

– Ambientes Pouco Controlados

   São lugares onde há algum controle do som, quando se tem pouco trânsito ou é possível pedir para as pessoas presentes fazerem silêncio. Para esse setup utilizo um microfone direcional Yoga HT 81 acoplado na câmera e um pré-amplicador portátil FiiO E6. O sinal do microfone vai para o FiiO e depois para a câmera. Nessa situação é possível monitorar o áudio com a ajuda de um fone de ouvido. Como o sinal já entra na câmera muito mais alto, deixo o controle de volume no manual, para evitar picos.

– Ambientes Controlados

   Quando há silêncio e pouco movimento ao redor. Nesse setup utilizo o Yoga em um pedestal de microfone posicionado o mais próximo possível da pessoa que irá falar, evitando o som ambiente em excesso. Também utilizo um pré-amplificador PHS-PW-2000, mais potente que o FiiO. Com isso o sinal fica mais alto e limpo. Nesse caso o controle de volume também fica no manual.

Setup para ambientes controlados

Setup para ambientes controlados

Observações gerais

Alguns pontos que considero fundamentais para quem está disposto a filmar documentários com DSLR:

– Não economize em baterias. A autonomia da bateria varia de modelo para modelo mas, em geral, cada bateria dura em torno de uns 40 ou 50 minutos. Saia sempre com baterias o suficiente para não ter que se preocupar com isso.

– Outro item em que não se deve economizar são os cartões de memória. No caso de cartões SD, eles devem ser no mínimo Classe 6, para se evitar problemas de buffer na gravação. Prefiro usar cartões de 16GB porque se eu tiver algum problema com ele não perco tanto material assim. Ainda sobre os cartões eu sigo uma regra: cartão descarregado é cartão formatado. Não há nada pior do que no meio de uma gravação pegar um cartão com material dentro e ficar na dúvida se ele pode ser apagado ou não.

– Na hora de escolher o tripé leve em conta o peso dele. Não é vantagem ter um tripé gigante que não cabe em um porta-malas e que precisa de uma pessoa apenas para carregá-lo.

– Na hora de comprar equipamento escolha o que mais te agrada e melhor atende suas necessidades. Não caia no papo do vendedor.

t3i em ação

t3i em ação

 

Música Operária e Marli

Em 2014 dirigi e fotografei o curta-metragem “Música Operária” e fiz a direção de fotografia de outro curta, “Marli”, dirigido por Marta Schneider. Como os dois filmes foram feitos no mesmo período, o processo e o equipamento utilizados foram os mesmos.

A primeira mudança foi que troquei de câmera e passei a utilizar uma Canon 70D. As vantagens da 70D sobre a t3i e toda a linha “t” são muitas, considero ela superior até mesmo a 60D e a tão falada 7D. A Canon 70D é uma DSLR fabricada pensando na produção de vídeo, sua interface é muito melhor do que todos os outros modelos citados até agora e faz o Magic Lantern ser coisa do passado. O visor LCD dela é touchscreen o que permite um acesso muito mais rápido ao menu e facilita qualquer alteração, mesmo durante as filmagens. O desempenho dela em situações com pouca luz também é superior, mesmo com ISO 800 ou 1000 ela não granula a imagem como os outros modelos. Os controles de áudio também são melhores, o pré-amplificador interno é mais potente e gera menos chiado no som gravado, e a 70D ainda permite o uso de um VU em tempo real durante as gravações.

Além das lentes Canon EF 50mm f/1.8 II e Tamron 17-50mm f/2.8 VC também utilizei a Sigma 70-300mm f/4-5.6 e uma Canon 24-105mm f/4.0 IS. Essa última fez a diferença, principalmente nas filmagens de Marli. O filme mostra uma pescadora da cidade do Guarujá-SP. Boa parte das filmagens foram feitas em um barco de pesca, nessas horas o estabilizador de imagem foi fundamental, por mais que firmeza nas mãos que você tenha, tudo muda quando não se tem os pés em terra firme. A medida 24-105mm também possibilita uma boa variação de enquadramentos, nos momentos em que precisei de planos mais fechados era só ir até o limite dos 105mm.

No Música Operária dei prioridade para a 17-50mm em ambientes internos e a 24-105 para externos. Em algumas filmagens noturnas a abertura f/1.8 da 50mm foi uma aliada importante. Como o filme é sobre um grupo musical a captação de áudio foi feita com cuidado, utilizando as práticas já mencionadas. A mixagem e masterização final foi feita por Patricio Salgado. Em ambos os filmes foram utilizadas algumas imagens feitas com uma Panasonic HDC-TM700.

Algo importante de frisar é como foi feito o processo de armazenamento do material. Ao final de cada dia de filmagem eu descarregava o material em um HD externo e na mesma hora renomeava os arquivos de acordo com o seu conteúdo. Depois, convertia os arquivos para o codec Apple Pro Res 422 e na sequência já os importava para um projeto de Final Cut Pro. Por fim, fazia backup de todo esse material em outro HD externo e, só depois, formatava os cartões. Ou seja, ao final de cada dia de filmagem tinha exatamente o mesmo material em dois HDs diferentes, pode parece excesso de precaução mas a última coisa com que você quer se preocupar no meio de um processo longo de filmagem é se o material do dia anterior ainda existe…

Qualquer dúvida: https://www.facebook.com/lucas.gervilla

Anúncios
1 comentário
  1. Claudio Marques disse:

    muito bom seus esclarecimentos,me ajudou,pois estou pensando em comparar uma t5i para documentários e sou leigo no que diz respeito a cameras.valeu!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: